Era dia primeiro de janeiro e comecei meio que sem querer o tal do Janeiro Seco. Eu falo que foi “meio que sem querer” porque precisava parar de beber por um tempo (mais uma vez) por conta de medicação. Nos dias que se seguiram, além de me sentir mal pra cac#$e por conta da medicação, acabei refletindo sobre o tal do Janeiro Seco e confesso que ainda não entendi muito bem sua função.
Nascido no Reino Unido em 2013, o movimento Janeiro Seco (“Dry January”) propõe o desafio de passar o mês de janeiro sem consumir bebidas alcoólicas, para estimular a reflexão sobre o consumo de álcool. Nos últimos anos, temos visto uma queda no consumo de bebidas alcoólicas pelo mundo todo e, ao mesmo tempo, estamos vivendo praticamente uma epidemia de “vida saudável instagramável” onde o suco de laranja natural virou vilão, mas o consumo do refrigerante zero é liberado pelo “nutri” porque tem menos calorias.
Eu até entendo que a ideia seja refletir um pouco sobre moderação de consumo, mas como falar de moderação em um mundo onde, cada vez mais, parece que esse conceito virou um tabu? Vivemos em um mundo estranho que valoriza a super produtividade (sim, sobrecarga mudou de nome) e passa horas e horas no celular hipnotizado pelas aparências “perfeitas”. Um mundo de mentiras e aparências que sorri enquanto se entope de antidepressivos e não sabe lidar com frustrações. Um mundo que fala de “drinks funcionais”, mas não sabe nada sobre a agricultura familiar que coloca comida na sua mesa (ou você acha que comida aparece magicamente no supermercado ou na feira?). Como falar ou refletir sobre moderação nesse mundo? Se você tiver alguma ideia, vou adorar saber.

Enquanto isso, podemos falar sobre as minhas reflexões e dicas para conviver melhor com essa substância que é tão taxada de vilã:
1 – Você não está em uma competição com o coleguinha. Se o seu limite para bebida é de 2 cervejas e o do coleguinha é de 10 doses de cachaça, tá tudo bem. Você não precisa beber tanto quanto o coleguinha. Conheça o seu corpo e entenda os seus limites. Não vale ficar bêbado pra competir com o coleguinha e depois ficar dando vexame por aí.
2 – Beba água! A cada coquetel, a cada taça de vinho, a cada dose, beba água. O álcool desidrata, então é muito importante que você beba água durante o consumo. Entre um copo e outro da sua bebida favorita, inclua um copo de água.
3 – Entenda os motivos que te fazem beber:
- É só diversão com os amigos? Mas precisa ficar sempre bêbado para se divertir?
- É chateação e estresse com o trabalho? Se o seu trabalho virou motivo para beber, talvez seja hora de mudar de trabalho.
- É vontade de calar a tristeza? Tristeza é um sentimento normal da vida. Não é normal ser feliz todos os dias, 24h por dia. Talvez seja hora de conversar sobre isso na terapia.
Algumas pessoas acham que álcool só tem o propósito de te deixar bêbado e não se permite ver a coquetelaria (e as bebidas em geral) como uma experiência gastronômica. Os produtores de bebidas têm o cuidado e o carinho de fermentar, destilar e envelhecer. Alguns processos levam dias, outros levam anos. E você aí com uma obra de arte na mão achando que ela só serve pra te deixar bêbado.
Minha mãe costumava dizer que “tudo demais é veneno”. Todo excesso é veneno (e você pode levar essa frase para muitos aspectos da sua vida: excesso de trabalho, excesso de comida, excesso de bebida, excesso de exercícios, excesso de horas no celular, excesso de cuidados…). Se você precisa se desafiar a parar de beber por 30 dias, talvez seja porque a bebida tem um lugar errado na sua vida. O desafio mesmo é conhecer seus limites e lidar com as frustrações da vida sem precisar ficar dormente. O álcool pode ser fonte de prazer e boas experiências quando consumido com moderação.
